Quem acompanha o hóquei no gelo sabe que, além da velocidade alucinante e da precisão cirúrgica dos passes, há uma camada de fisicalidade e, por vezes, de pura brutalidade que define o esporte. E no meio de todo esse embate, existe uma figura quase mítica, um personagem que, embora controverso, carrega um peso enorme na história e na cultura da NHL: o *enforcer*. Recentemente, essa discussão veio à tona com um dos nomes mais quentes dos bastidores da liga. Durante uma coletiva de imprensa na manhã de segunda-feira, Travis Green, o novo treinador principal do Ottawa Senators, fez questão de defender publicamente seu jogador de linha de fundo, Kurtis MacDermid. Green não hesitou em elogiar seu “atacante robusto de quarta linha”, reacendendo um debate que, para muitos, parecia ter esfriado. Mas afinal, o que um jogador como MacDermid representa na NHL atual, e por que a sua defesa pelo técnico dos Sens é tão significativa? Prepare-se para mergulhar fundo nesta discussão que vai muito além das brigas no gelo.
O Papel do Enforcer no Hóquei: Entre a Tradição e a Modernidade
Para o público brasileiro que ainda está se familiarizando com as nuances do hóquei, é essencial entender o papel do enforcer. Tradicionalmente, o enforcer é um jogador cuja principal função não é marcar gols ou dar assistências, mas sim impor respeito físico, proteger os companheiros de equipe (especialmente os astros mais talentosos e vulneráveis) e, se necessário, responder a provocações ou jogadas sujas com uma briga. Eles são os “homens fortes” do time, os guardiões, aqueles que se dispõem a pagar o preço físico para garantir que ninguém mexa com seus companheiros. Essa função nasceu praticamente junto com o hóquei profissional, e ganhou notoriedade a partir dos anos 1970, quando equipes como o Philadelphia Flyers, apelidados de “Broad Street Bullies”, provaram que a intimidação e a força bruta podiam levar a campeonatos. Nomes como Dave “The Hammer” Schultz, Tie Domi, Bob Probert, John Kordic e Terry O’Reilly se tornaram lendas, temidos pelos adversários e adorados pelos fãs de suas equipes.
Durante décadas, ter um enforcer robusto era quase um requisito para qualquer time que aspirasse a algo na NHL. A presença de um jogador desse calibre no banco de reservas ou na quarta linha era um aviso claro para os oponentes: “Se você tentar alguma coisa, haverá consequências”. Isso criava um equilíbrio, uma espécie de justiça informal no gelo, onde os jogadores mais técnicos se sentiam mais seguros para operar sabendo que tinham um guarda-costas à disposição. No entanto, o hóquei evoluiu. O jogo se tornou mais rápido, mais focado na técnica e na patinação. As regras foram ajustadas para desencorajar brigas e jogadas perigosas, e a preocupação com a saúde dos atletas, especialmente em relação a concussões e CTE (Encefalopatia Traumática Crônica), cresceu exponencialmente. Como resultado, o enforcer “puro”, aquele que só jogava para brigar, começou a desaparecer lentamente da liga. Hoje, um jogador que não contribui em outras áreas do jogo tem dificuldade em justificar um lugar no elenco de 23 jogadores.
É nesse contexto que entra Kurtis MacDermid. Com 1,96m de altura e mais de 100 kg, MacDermid é a personificação da força e da presença física no gelo. Ao longo de sua carreira, que começou no Los Angeles Kings e teve passagens pelo Colorado Avalanche antes de chegar a Ottawa, ele construiu uma reputação de jogador intrépido, que não foge de um desafio físico. Ele não é um goleador prolífico, mas sua contribuição vai muito além das estatísticas de pontos. Ele é um defensor que finaliza os *checks* com força, limpa a área em frente ao gol, bloqueia chutes e, sim, ainda sabe como lutar quando a situação exige. Sua aquisição pelos Senators foi um movimento estratégico claro: adicionar “musculatura” e uma dose de dureza a uma equipe jovem que busca estabelecer sua identidade e não ser intimidada por rivais mais experientes ou fisicamente maiores. O ataque de Green a favor de MacDermid não foi apenas uma defesa de um jogador, mas uma afirmação de uma filosofia: a crença de que a fisicalidade e a proteção ainda têm um lugar vital no hóquei moderno, mesmo que o papel do enforcer tenha se transformado.
A Necessidade de Musculatura em um Jogo de Velocidade: O Enforcer Moderno
O debate sobre a relevância do enforcer na NHL contemporânea é multifacetado e apaixonante. De um lado, críticos argumentam que as brigas são uma relíquia bárbara de um passado distante, desnecessárias em um jogo de alta performance e perigosas para a saúde dos atletas. Eles apontam para o declínio acentuado no número de brigas por jogo na NHL nas últimas duas décadas como prova de que o jogo está se limpando e evoluindo. Muitos enforcers do passado tiveram vidas difíceis após a aposentadoria, com problemas neurológicos e de saúde mental atribuídos aos repetidos traumas na cabeça. A liga, com regras mais rígidas para brigas e sanções mais severas para jogadas perigosas, tenta desencorajar essas práticas.
No entanto, do outro lado do argumento, defensores da fisicalidade e de jogadores como MacDermid insistem que um “policial do gelo” ainda é fundamental. Eles não veem as brigas como um fim em si, mas como um meio de dissuasão. A mera presença de um jogador robusto e destemido pode impedir que um adversário tome liberdades excessivas com um companheiro de equipe mais talentoso. Pense em um capitão como Sidney Crosby ou Connor McDavid – estrelas que são alvos constantes de jogadas perigosas. Saber que há um MacDermid no banco pode fazer um defensor adversário pensar duas vezes antes de aplicar um *hit* atrasado ou um *slash* perigoso. Além disso, a energia que um bom *hit* ou, sim, até mesmo uma briga bem-sucedida, pode injetar em um banco de reservas e na torcida é inegável. É o famoso “grit” e “toughness” – termos que definem a resiliência e a dureza necessárias para ter sucesso em uma liga tão exigente como a NHL.
Travis Green, ao defender Kurtis MacDermid, está claramente no campo daqueles que acreditam no valor da fisicalidade e da responsabilidade. Ele entende que MacDermid não é apenas um “pugilista”, mas um jogador que traz um conjunto de habilidades valiosas para a quarta linha: ele estabelece um tom físico, ele é confiável na defesa e ele está disposto a fazer o trabalho sujo que muitas estrelas evitam. Para um time em reconstrução como os Senators, que busca criar uma cultura de trabalho duro e intransigência, um jogador como MacDermid é um componente essencial. Ele representa a alma do hóquei – um esporte que, apesar de toda a sua sofisticação e velocidade, ainda celebra a coragem, a lealdade e a disposição de lutar por seus companheiros.
A verdade é que o enforcer “tradicional” pode estar em extinção, mas o papel do enforcer, sob uma nova roupagem, continua a ser relevante. O “homem forte” de hoje é mais completo, capaz de patinar, defender e contribuir de outras formas, mas ainda carrega a bandeira da fisicalidade e da intimidação. Ele é o equilíbrio entre a arte e a guerra no gelo, uma figura que, mesmo com todas as controvérsias, permanece uma peça fundamental no intrincado tabuleiro estratégico da NHL. A declaração de Travis Green é um lembrete de que, apesar de todas as mudanças e modernizações, a essência do hóquei – um jogo de paixão, habilidade e, sim, muita força – permanece intacta.
Em suma, a defesa de Travis Green a Kurtis MacDermid vai muito além de um simples apoio a um jogador. Ela ressalta a importância contínua de um tipo específico de jogador em um esporte que valoriza a dureza tanto quanto a técnica. Em uma liga onde cada centímetro de gelo é disputado com fervor, ter um jogador que inspira respeito e intimida adversários ainda é uma vantagem tática inegável. Não se trata apenas de brigas, mas de presença, de uma mentalidade que se recusa a ser intimidada e que está sempre pronta para defender a honra da equipe. Essa é a essência do hóquei, um esporte que celebra a força e a astúcia em igual medida. E, por isso, o papel do enforcer, em sua forma moderna e multifacetada, continuará a ser debatido e, sem dúvida, valorizado por muitos no mundo do gelo.




